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sexta-feira, 6 de março de 2020

O PAPAGAIO REAL, DE LUIS DA CÂMARA CASCUDO

O PAPAGAIO REAL
LUIS DA CAMARA CASCUDO

DUAS MOÇAS MORAVAM JUNTAS E ERAM IRMÃS, UMA MUITO BOA E OUTRA MALDIZENTE E PREGUIÇOSA.
Cada uma tinha seu quarto. A mais velha começou a notar à noite, um barulho de asas e depois fala de homem no quarto da irmã. Ficou desconfiada e foi olhar pelo buraco da fechadura.
Viu uma bacia cheia d’água no meio do quarto. Quando deu meia-noite, pousou na janela um papagaio enorme, muito bonito e voou para dentro, metendo-se na bacia, sacudindo-se todo, espalhando água para todos os lados. Cada gota d’água virava ouro, e o papagaio, quando saiu do banho foi o príncipe mais formoso do mundo. Sentou-se ao lado da irmã e pegaram a conversar animados como noivos.
A irmã ficou roxa de inveja. No outro dia, de tarde, encheu o peitoril da janela de cacos de vidro, assim como a bacia. Nas horas da noite, o papagaio chegou e, batendo no peitoril, cortou-se todo. Voou para a bacia e cortou-se ainda mais. Arrastando-se, o papagaio não virou príncipe, mas chegou até a janela e disse para a moça que estava assombrada com o que sucedera:
     - Ai, ingrata! Dobraste-me os encantos! Se me quiseres ver, só no reino de Acelóis.
     E batendo asas, desapareceu.  A moça quase se acabou de chorar e de se lastimar. Brigou muito com a irmã e deixou a casa, procurando o noivo pelo mundo
     Ia andando, empregando-se como criada nas casas só para perguntar onde ficava o reino de Acelóis. Ninguém sabia ensinar, e a moça ia ficando desanimada.
     Uma noite, depois de muito viajar, já cansada, ficou com medo dos animais ferozes e subiu em uma árvore, escondendo-se bem nas folhas. Estava amoquecada quando diversos bichos esquisitos chegaram para baixo do pé-de-pau e pegaram a conversa..
     - De onde chegou você?
     - Do reino da lua!
     - E você?
     - Do reino do Sol!
     - E você?
     - Do reino dos Ventos!
     A moça prestou atenção. No primeiro cantar dos galos, sumiram-se todos, e ela desceu e continuou a marcha. Andou, até que chegou noutra mata e, para não ser devorada, trepou numa árvore. Lá em cima, quando a noite ficou bem fechada, chegaram umas vozes no pé-do-pau.
     - De onde veio?
     - Do reino da Estrela!
     - De onde veio?
     - Do reino de Acelóís!
     - Que novidades me traz?
     - O príncipe está doente e ninguém sabe como tratar dele...
     A moça botou reparo e, na madrugada, seguiu no mesmo rumo, pois as vozes já tratavam do reino de Acelóis. Andou, andou, andou. Finalmente, quando anoiteceu, estava dentro de uma floresta. Subiu em um pé-de-pau e ficou quieta, lá em cima mais tarde, as vozes começaram na falaria:
     - De onde vem você?
     - Do reino de Acelóis!
     - Como vai o príncipe?
     - Vai mal, coitado, não tem remédio!
     - Ora, Não tem! Tem!
     O remédio e ele beber três gotas de sangue do dedo mindinho de uma moça donzela que queira morrer por ele!
     Quando amanheceu o dia, a moça tacou-se na estrada. Ia o sol sumindo, quando ela avistou o reinado de Acelóis. Entrou no reinado e pediu agasalho numa casa.
     Na hora da ceia, perguntou o que havia e disseram que o assunto da terra era a doença do príncipe. A moça, no outro dia, mudou os trajes, foi ao palácio e pediu para falar com o rei.
     - Rei Senhor!
Atrevo-me a dizer que ponho o príncipe bonzinho se o Rei Senhor me der, de tinta e papel, a metade do reinado e de tudo quanto lhe pertencer.
     O rei deu, de tinta e papel, a metade de tudo quanto possuía.
A moça foi para o quarto, meiou um copo d’agua, furou o dedo mindinho, boto três gotas de sangue dentro, misturou e mandou o príncipe beber. Assim que ele engoliu, foi abrindo os olhos, levantando-se da cama e abraçando a moça numa alegria por demais.
     O rei ficou muito satisfeito. Mas, quando o príncipe disse que aquela era a sua verdadeira noiva, desde o tempo em que ele estava encantado em um papagaio-real, o rei não quis dar consentimento porque a moça não era princesa.
     A moça então falou:
     - Rei Senhor!
     Tenho por tinta e papel a metade de tudo quanto é do Rei Senhor neste reinado O Príncipe é do Rei Senhor, e eu tenho por minha metade dele. Se o Rei Senhor não quiser que eu me case com ele inteiro, levarei para casa uma banda.
     Ao ouvir falar em corta o Príncipe pelo meio, como um porco, o rei chegou-se às boas e deu o consentimento. Foram três dias de festas e danças, e até eu me meti no meio, trazendo uma latinha de doce. Mas, na Ladeira do Encontrão, levei uma queda e ela, pafo! No chão!...

O PRÍNCIPE QUE BOCEJAVA, DE ANA MARIA MACHADO

O PRINCIPE QUE BOCEJAVA
ANA MARIA MACHADO

Era uma vez um príncipe muito bem educado, que tinha se preparado toda a vida para ser rei um dia.
 Desde pequenino, aprendeu a não brincar de esconder atrás das cortinas do salão do palácio, a não patinar nem andar de skate pelos corredores, a não descer pelo corrimão da escadaria. Também lhe ensinaram a se portar á mesa com boas maneiras, a ser gentil com as pessoas, a ficar horas em pé sem se mexer, assistindo quietinho aos desfiles e paradas.
 Teve professores de dança e de ginástica, de equitação e de golfe.  Aulas de economia e de política, de direito e de línguas. Aprendeu toda a história de seu País e toda a geografia do mundo. As mais completas bibliotecas do reino não tinham segredos para ele. Os melhores professores e conselheiros foram seus preceptores. Seus computadores tinham sempre os programas de última geração. Estava sempre lendo seus autores preferidos, pronto para discutir personagens e situações. Tinha argumentos para defender suas opiniões em qualquer discussão. Sabia de cor vários poemas lindos.
Quando cresceu, ficou um rapaz encantador. Podia ser considerado um verdadeiro príncipe encantado ­­- para quem ainda acreditasse nessas coisas. Todas as moças suspiravam por ele, sonhavam com ele, recortavam suas fotos que saíam nas revistas. 
Então chegou a hora de resolver com quem ia casar.
Deram um grande baile, daqueles de escolher noiva. Vieram princesas encantadoras, de todo canto. O príncipe dançou com todas e foi muito gentil.  Mas assim que começou a conversar com a primeira, aconteceu algo muito desagradável.
- Aaaaaaaahhh!
Por mais que ele tentasse disfarçar, quem estava por perto viu.
O príncipe estava bocejando!
“Mas que mal educado!”, pensou alguém.
- O príncipe deve estar muito cansado comentou um assessor.
- Essa princesa deve ser uma chata – também houve quem dissesse.
E trataram de levar a moça dali e chamar outra para conversar com o príncipe. Não adiantou nada. Em cinco minutos, ele já estava bocejando:
- Aaaaaaaahhh!
Por mais que o príncipe tentasse, não conseguia segurar. Fazia força, fechava a boca, mas os músculos não obedeciam, parecia que o ar queria sair pelo nariz e pelos ouvidos. Vinha um sono enorme que dava vontade de bocejar.    O máximo que ele podia fazer era esconder a boca com a mão. Mas os olhos se fechavam e a corte toda via que o príncipe estava bocejando.
Vinha uma princesa atrás da outra para conversar com ele. Com todas acontecia o mesmo. Elas se aborreciam, os pais delas se zangavam, todo mundo comentava.
No dia seguinte, estava em todos os jornais:
PRÍNCIPE OFENDE PRINCESAS ESTRANGEIRAS
Havia fotos do príncipe bocejando e artigos falando mal dele, cheios de expressões complicadas, como “incidente diplomático”. Uma nota do palácio explicou que ele cancelara toda a agenda oficial e ia descansar por alguns dias.
Daí a algumas semanas, deram outra festa de escolher noiva. Como algumas princesas não quiseram vir, também foram convidadas várias atrizes, cantoras e modelos. Cada moça mais linda que a outra. O príncipe estava evidentemente entusiasmado. Dançou sem parar e escolheu algumas daquelas belezas para depois conhecer melhor – em pequenos jantares, compartilhando seu camarote em estréias de gala no teatro, ou passando fins de semana em castelos de amigos. Mas nesses segundos encontros acontecia a mesma coisa. Depois de poucos minutos de conversa, vinha aquela vontade incontrolável e...
- Aaaaaaaahhh!
O príncipe bocejava!
Só podia estar doente. Talvez com a doença do sono.
Os médicos então sugeriram:
- Uma viagem! Talvez assim Vossa Alteza conheça outras princesas...
Bastou essa ideia e ele começou de novo:
- Aaaaaaahhh!
É que nem podia ouvir falar em princesa que se lembrava das conversas que tinha ouvido. De todas aquelas moças falando de roupas e do cabeleireiro e do namorado de uma amiga e da irmã da vizinha e do último lançamento da butique e do regime que a prima da cunhada tinha feito e da festa do duque e do número de calorias do empadão e do chapéu novo da marquesa e do chapéu velho da baronesa e do corte de cabelo esquisito da condessa e da...
- Aaaaaaaahhh!
E em seguida um grito:
- Chega! Não quero mais conhecer princesa nenhuma! Vou viajar, sim... Mas do meu jeito.
O jeito dele era se disfarçar, para ninguém reconhecer nem chegar perto com aquelas conversas chatas. E como suas fotos estavam em todo canto, tratou de ficar bem diferente. Cortou e pintou o cabelo, pôs brinco e óculos escuros, se vestiu de um jeito bem moderno, botou uma mochila nas costas. Quem visse achava que ele estava indo para algum festival de rock.
Primeiro, saiu de moto pelas estradas. Viu uma porção de lugares bonitos, sentindo o vento e curtindo a liberdade. Depois, quando cansou de estar sozinho, resolveu viajar de trem.
Logo no primeiro trecho, o trem estava meio cheio e não havia lugar perto da janela. Sentada junto á vidraça, uma moça nem aproveitava para ver a paisagem porque estava distraída lendo um livro.
O príncipe ficou esperando uma oportunidade para propor uma troca de lugares. A moça continuava mergulhada na leitura. Ás vezes arregalava os olhos. Outras vezes sorria. Devia ser um livro interessantíssimo. Ele morria de curiosidade para ver o título. Até que não agüentou mais e perguntou. Quando ela respondeu, ele sorriu:
- Eu adoro esse autor, mas não conheço esse livro.
- É que acaba de sair... A história se passa no mesmo lugar que aquele outro que...
Num instante estavam conversando. Falando de personagens que conheciam como se fosse gente de verdade. Tinham lido alguns livros que eram os mesmos. Mas cada um tinha também suas leituras diferentes. Então recomedavam, contavam, comparavam. Lembravam trechos de que gostavam, criticavam o que não gostavam.
- Para onde você está indo? – perguntou ele depois de quatro horas de viagem e de conversa, sem bocejar nem uma vez.
Quando ela respondeu, ele mentiu e disse que também ia para lá. Só para encontrar de novo com a moça no outro dia e continuar a conversa. E quando descobriu que daí a três dias ela seguia viagem para outro lugar, o príncipe exclamou:
- Mas que coincidência! Eu também...
Continuaram viajando juntos por muitas semanas. Conversavam o tempo todo, o assunto nunca acabava, sempre tinham coisas interessantes para contar.
Não tinham roteiro fixo. De vez em quando um sugeria uma cidade:
- Vamos saltar na próxima estação? Viu o nome? É lá que fica aquela abadia que...
- Claro! Eu também li esse romance. Vamos, sim!
Depois o outro lembrava:
- Vi no mapa que a gente está bem pertinho da aldeia onde nasceu aquele poeta de que você estava falando outro dia... podíamos ir ver a casa dele.
E incluíam mais uma visita em seu caminho. Estavam adorando viajar juntos. E ele nem bocejava.
Mas um dia começou a pensar: “Que mistério era aquele? Como é que aquela moça podia ir para onde quisesse, daquele jeito? Não tinha família? Não morava em lugar nenhum? De onde vinha? Para onde ia?” Resolveu perguntar.
Ela ficou meio envergonhada para responder:
- Bom, eu moro mesmo é num lugar meio longe daqui.
E disse justamente o nome do reino dele. Depois continuou a explicação:
- Só estou podendo viajar porque ganhei um prêmio. O segundo lugar num concurso. Se fosse o primeiro, ganhava muito dinheiro, uma casa mobiliada, até com livros na estante e um carro na garagem. Mas como foi o segundo, ganhei um passe de trem válido por seis meses, para onde eu quiser. E uma caixa de livros. Mas eu já tinha lido alguns, da biblioteca...
- Então a gente troca. Você me passa os que já leu, e eu lhe dou só livros que você não tiver lido. Combinado?
Combinaram. Ainda mais porque eram da mesma cidade, ia ser fácil fazer a troca... E ele ficou convencido de que, em poucos meses, quando acabasse o passe dela, ele também ia voltar para casa.
- E você? Por que está viajando?
            Meio sem jeito, ele resolveu que ia contar seu segredo e dizer a verdade. Tinha vontade de ficar o resto da vida ao lado dela, conversando sem parar. Não podia mentir:
            - Bom, de verdade, eu sou príncipe...
            Ela riu, batendo palmas:
            - Que maravilha! Mais uma coincidência... Eu também sou princesa...
            - Princesa?
            - É... Tirei o segundo lugar no concurso de carinha da uva na Festa da Colheita, eu não lhe disse?
            Não, não tinha dito. Não exatamente isso. Mas não fazia mal.
            Daí a alguns meses a Princesa que Lia e o Príncipe que Não Bocejava Mais voltaram para casa e se casaram. Não sei se viveram felizes para sempre. Mas por muito e muitos anos, até onde a memória alcança, tiveram assunto para conversar e se divertir. Leram muito. E às vezes, quando bocejavam, já sabiam porque era: estavam com sono e era hora de ir para cama.

sábado, 16 de março de 2019

POESIA NA VARANDA

POESIA NA VARANDA
AUTORA: SÔNIA JUNQUEIRA

BROTOU do chão a poesia
Na forma de uma plantinha
Espigada, perfumosa,
Se abrindo toda pra mim:
Mensageiro da alegria,
Era um pé de alecrim
Que dourou a minha vida...

PASSOU por mim a poesia
Na forma de uma gatinha
Amarela, tão macia!,
Uma bola peludinha
Que chegou bem de mansinho...
Batizei-a de Chiquinha,
Fiquei com ela pra mim.

ENTROU em mim a poesia
Na forma de uma canção
Que falava de uma rua
Com pedrinhas de brilhantes
E de um anjo solitário
Que vivia por ali
E roubou um coração

Gritou no mato a poesia
Quando caiu a noitinha:
Era um concerto de grilos,
Tantos astros em seresta,
Pois era dia de festa,
E dentro da boca da noite
Cantaram um coro sem fim...

BRILHOU pra mim a poesia
Na forma de lua cheia
E de um céu estrelado
Despencando no telhado
De zinco do avarandado,
Pronto para ser pisado
Por alguém bem distraído...

CRESCEU em mim a poesia
Na forma de uma tristeza,
Um chorinho derramado
No silêncio da varanda.
Veio vindo, foi chegando
- carregada pelo vento? –
E tomou conta de mim.

CAIU do céu a poesia
Na forma de uma chuvinha,
Pingos grossos, cheiro doce,
Que molhou as redondezas,
Encharcou os meus cabelos,
Inundou a minha vida
E levou minha tristeza.

SORRIU pra mim a poesia
Na forma de um amigo
- mão estendida, carinho,
E estar juntos, quietinhos
Ou ouvindo, ou contando,
Ou rindo e barulhando... –
E abraçou minha vida.

ME ARREBATOU a poesia
Trazida pelas palavras
Abrigadas entre as páginas
Do livro que alguém lia
E que deixou por ali:
Mundo entrando pelos olhos,
Enriqueceu minha vida.

AGORA, sempre que quero
Saber cadê a poesia,
Dou um pulo na varanda,
Me debruço – e espero:
Quem sabe se de repente
Ela volta e, simplesmente,
Vem contar por onde anda...

sábado, 16 de fevereiro de 2019

ALGUNS PERSONAGENS DO LIVRO O QUINZE

Cordulina - É a esposa de Chico Bento. Personifica a mulher submissa, analfabeta, sofredora, com o destino atrelado ao destino do marido. É o exemplo da miséria como conseqüência da falta de instrução.

Josias - Filho de Chico Bento e Cordulina, tem cerca de dez anos de idade. Comeu mandioca crua e morreu envenenado na estrada.

Pedro - Filho de Chico Bento e Cordulina, é o mais velho, tem doze anos de idade. Desapareceu quando o grupo ia chegando a Acarape.

Manuel (Duquinha) - É o filho caçula de Chico Bento e Cordulina; tem dois anos anos de idade. Foi doado à madrinha, Conceição.

Paulo - Irmão mais velho de Vicente, ele é o orgulho dos pais (pelo menos no início). Estudou, fez-se doutor (promotor) e casou-se na cidade com uma moça branca. Depois de casado, passou a dedicar o seu tempo à família, quase não se interessando mais pelos pais e pelos irmãos. Só então os pais deram valor a Vicente.

Mocinha - Irmã de Cordulina, ficou como empregada doméstica em Castro, na casa de sinhá Eugênia. Arranjou um filho sem pai e tudo indica que vai viver da prostituição.

Lourdinha - Irmã mais velha de Vicente. Casou-se com Clóvis Garcia em Quixadá. No final, têm uma filha, símbolo da felicidade que as pessoas simples e descomplicadas conseguem conquistar.

Alice - Irmã mais nova de Vicente. Mora na fazenda com os pais e os irmãos.

Dona Inácia - Avó de Conceição, espécie de mãe, pois foi quem a criou depois que a mãe verdadeira morreu. É dona da fazenda Logradouro, na região de Quixadá. Não aprova as idéias liberais da neta, principalmente no que diz respeito a ficar solteirona.

Dona Idalina - Prima de Dona Inácia. Idalina é a mãe de Vicente, Paulo, Alice e Lourdinha. Vive com o marido, Major, na fazenda perto de Quixadá.

Major - Fazendeiro rico na região de Quixadá. Entrega a administração da fazenda ao filho Vicente. Orgulha-se de ter um filho doutor: o Paulo, promotor em uma cidade do interior do Ceará.

Dona Maroca - Fazendeira, dona da fazenda Aroeiras na região de Quixadá. Na época da seca, mandou o vaqueiro, Chico Bento, soltar o gado e procurar, por conta própria, meios para sobreviver.

Mariinha Garcia - Moça bonita, de família rica, moradora de Quixadá. Com auxílio de Lourdinha e Alice, faz tudo para conquistar Vicente, mas as tentativas resultam inúteis.

Luís Bezerra - Compadre de Chico Bento e Cordulina. Trabalhara também nas Aroeiras sob o comando de Dona Maroca. Agora, é delegado em Acarape, povoado do interior do Ceará. Foi ele quem conseguiu passagens de trem para que a família do compadre chegasse a Fortaleza.

Doninha - Esposa de Luís Bezerra, madrinha do Josias, o filho de Chico Bento que morreu envenenado na estrada.

Zefinha - Filha do vaqueiro Zé Bernardo. Conceição, acreditando numa conversa que tivera com Chiquinha Boa, acha que Vicente tem um caso com Zefinha.

Chiquinha Boa - Trabalhava na fazenda de Vicente. Na época da seca, achando que o governo do Ceará estava ajudando os pobres que migravam para a capital, deixou a zona rural.
LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE UMA DAS PASSAGENS DA OBRA O QUINZE, DE RACHEL DE QUEIROZ

O QUINZE

Mas foi em vão que Chico Bento contou ao homem das passagens a sua necessidade de se transportar a Fortaleza com a família. Só ele, a mulher, a cunhada e cinco filhos pequenos.
O homem não atendia.
- Não é possível. Só se você esperar um mês. Todas as passagens que eu tenho ordem de dar, já estão cedidas. Por que não vai por terra?
- Mas, meu senhor, veja que ir por terra com esse magote de meninos é uma morte!
O homem sacudiu os ombros:
- Que morte! Agora é que retirante tem esses luxos . . . No 77 não teve trem para nenhum. É você dar um jeito, que, passagens, não pode ser. . .
Chico Bento foi saindo.
Na porta, o homem ainda o consolou:
- Pois se quiser esperar, talvez se arranje mais tarde. Imagine que tive de ceder cinqüenta passagens ao Matias Paroara, que anda agenciando rapazes solteiros para o Acre!
Na loja do Zacarias, enquanto matava o bicho, o vaqueiro desabafou a raiva:
- Desgraçado! Quando acaba, andam espalhando que o governo ajuda os pobres. .. Não ajuda nem a morrer!
O Zacarias segredou:
- Ajudar, o governo ajuda. O preposto é que é um ratuíno. . .Anda vendendo as passagens a quem der mais . . .
Os olhos do vaqueiro luziram:
- Por isso é que ele me disse que tinha cedido cinquenta passagens ao Matias Paroara! . . .
- Boca de ceder! Cedeu, mas foi mão pra lá, mão pra cá . . O Paroara me disse que pouco faltou pro custo da tarifa . . .Quase não deu interesse . . .
Chico Bento cuspiu com a ardência do mata-bicho:
- Cambada ladrona!

01.  Os olhos de Chico Bento luziram de
a) revolta.
b) compreensão.
c) ironia.
d) dor.
e) satisfação.

02. ". . . o governo ( . . . ) não ajuda nem a morrer!" Este desabafo revela-nos
a) religiosidade.
b) ironia.
c) conformismo.
d) comparação.
e) esperança.

03.  A passagem que melhor caracteriza uma atitude irônica, embora amarga e necessitada, é:
a ) "Só se você esperar um mês."
b) "Mas foi em vão . . . "
c) "Só ele, a mulher, a cunhada e cinco filhos pequenos."
d) ". . . ir por terra com esse magote de meninos é uma morte!"
e) "Por isso é que ele me disse que tinha cedido cinqüenta passagens..."

4) Este texto foi tirado do romance de Rachel de Queiroz O Quinze. No trecho há referência a um número: O 77. Estes números indicam
a) os trens encarregados de transportar retirantes.
b) o tempo em meses que durou cada uma das grandes secas nordestinas.
c) os anos em que houve as grandes secas do Nordeste.
d) o total diário de mortes durante as secas.
e) o total de cidades nordestinas assoladas pelas secas.

5) A primeira reação de Chico Bento, após a negativa ao seu pedido, foi:
a) procurar alguém influente para conseguir-lhe as passagens.
b) desabafar sua raiva num comentário contra o homem das passagens.
c) abafar a sua raiva na cachaça.
d) revoltar-se contra o governo.
e) conformar-se com seu destino.

6) O funcionário encarregado de vender as passagens era
a) um inocente útil.
b) um bode expiatório.
c) maria-vai-com-as-outras.
d) pobre-diabo, infeliz como Chico Bento.
e) aproveitador da desgraça alheia.

7) Matias recebeu o apelido de Paroara porque
a) tinha o monopólio das passagens de trem.
b) era considerado um ratuíno por todos que o conheciam bem.
c) contratava rapazes para o trabalho nos seringais.
d) tinha a sagacidade e a tenacidade comuns aos paus-de-arara.
e) nascera no Pará.

8 ) A expressão usada por Chico Bento - "com esse magote de meninos" - revela
a) a pobreza de seus filhos.
b) a desolação que a seca provocara no vaqueiro.
c) a influência do vocabulário profissional no linguajar quotidiano.
d) o penoso e lastimável estado doentio em que se encontravam os garotos.
e) a hipocrisia do funcionário das passagens.

9) A expressão "mão pra lá e mão pra cá" tem sentido
a) agrícola.
b) comercial.
c) humorístico.
d) náutico.
e) romântico.

10) Assinale, segundo o texto, a afirmativa correta.
a) O Matias Paroara fez um grande negócio com as passagens.
b) O governo vendia as passagens por preço reduzido aos retirantes.
c) Chico Bento estava na capital do Ceará solicitando passagens.
d) O número de pessoas que dependiam do vaqueiro impedia a sua locomoção por terra.
e) O governo, através de passagens gratuitas, procurava incrementar o envio de braços para os seringais paraenses.
ATIVIDADE DE ANÁLISE DA OBRA O QUINZE, DE RACHEL DE QUEIROZ

01. Considerando a história retratada por Rachel de Queiroz em seu
livro “O Quinze”, podemos afirmar que esse romance pode ser considerando:

a. um romance indianista.
b. um romance regionalista.
c. um romance urbano.
d. um romance grotesco.

02. Sobre a produção da obra “O Quinze”, por Rachel de Queiroz, escreva V
para as opções verdadeiras e F para as falsas:
(_____) Rachel de Queiroz vivenciou toda a seca de 1915, o que fez com que ela escrevesse o livro baseada nas suas reminiscências, na visitação ao arquivo da memória.
(_____) O livro “O Quinze, foi lançado no ano de 1930.
(_____) O enredo do livro “O Quinze, está estruturado em dois planos: o drama do vaqueiro Chico Bento e sua família retirante; e a relação afetiva de Conceição, professora culta, de família tradicional, e Clóvis, que, embora seu primo, é um rude proprietário de terras e criador de gado.
(_____) Embora haja essas duas linhas condutoras da história, com personagens relevantes, a protagonista é a própria seca, responsável por todo o desenrolar das ações. 
(_____) Chico Bento com sua mulher e seus dez filhos, em função da seca e
da consequente falta de trabalho, são obrigados a imigrar para a cidade grande em busca de sobrevivência.
(_____) Embora não haja, na história, a divisão de "pessoas pobres e boas"
e de "pessoas ricas e más", há a denúncia da corrupção, mostrando que existem os que se aproveitam da desgraça dos outros para levar vantagem.

03. Em 1915, no sertão cearense, o vaqueiro Chico Bento, sem mais perspectivas de manter sua família na fazenda em que trabalha há muitos anos, decide aventurar-se até a capital, de onde pretende partir para o Norte, com o sonho de trabalho garantido e
vida melhor. O mesmo segue seu itinerário na companhia de alguns personagens. Lembre do nome deles e respondas as perguntas que segue.
a.  Nome da mulher de Chico Bento. ____________________________________
b. Nome do filho de Chico Bento, de 10 anos, que num momento de fome,
comeu mandioca crua, envenenando-se. Agonizou em morte lenta, sem que nada se pudesse fazer para aliviá-lo. _______________________________
c. Nome do filho mais velho de Chico Bento, de 12 anos, que  foge com comboeiros de cachaça, quando estão entrando na cidade de Acarape. ______________________________
d. Nome do filho mais novo de Chico Bento, de 02 anos,  que fica aos cuidados de Conceição, sua madrinha, após a viagem de seus pais para o sudeste. ____________________
e. Nome da cunhada de Chico Bento, que resolve ficar morando na localidade de Castro com uma mulher proprietária de um comércio próximo a Estação do Trem, com o objetivo de amenizar seu sofrimento.  ________________________________

Agora, considerando toda a trajetória de Chico Bento na busca de boas condições de vida, escreva o nome dos personagens e de lugares com os quais o personagem teve contato. Observe as perguntas.
a. Nome da Fazenda onde Chico Bento morava com a família? _______________________________
b. Nome da proprietária da fazenda? __________________________________
c. Nome do delegado, compadre de Chico Bento, que lhe acolheu na cidade de Acarape? ______________________________

04. Enumere os espaços abaixo obedecendo a ordem cronológica dos fatos que acontecem no livro.
(_____) Chico Bento, em decorrência da miséria em que se vê, mata uma cabra que encontra pelo caminho. Sua fome e a de seus filhos falam mais alto, e ele esfacela o animal, sem qualquer questionamento sobre o ato de se apropriar do alheio. O dono da cabra aparece e, além de tomar-lhe a carne, chama-o de ladrão, humilha-o, sem querer ouvir justificativas.
(_____) Na localidade de Castro a fome bate pela primeira vez na família de Chico Bento. Nesse mesmo lugar Chico Bento consegue trocar uma rede por farinha e rapadura.
(_____) Em algum ponto não definido da cidade de Baturité, um dos filhos de Chico Bento e Cordulina, morre intoxicado, depois de comer um pedaço de manipeba, um tipo venenoso de mandioca.
(_____) Chico Bento, Cordulina e os dois filhos que restaram partiram no porto de Fortaleza para São Paulo.
(_____) Dona Inácia, moradora que Quixadá que passara uma temporada em Fortaleza com a neta, Conceição, está no trem de volta para casa. Na estação de Baturité, se surpreende com uma moça que chama por ela. Era cunhada de Chico Bento que decidira tentar a vida no Castro. Não deu certo.
(_____) Perto de Fortaleza, na localidade de Acarape, a família vive novo drama. Chico Bento e Cordulina  descobrem que o filho mais velho, tinha desaparecido.
(_____) Chico Bento e a família desembarcaram em Fortaleza, na Estação do Matadouro e vão direto para o campo de concentração.
(_____) Chico Bento, vaqueiro dispensado pela patroa que não tinha como manter os empregados, diante do estrago causado pela seca, parte de Quixadá para Fortaleza, a pé.

05. Considerando as características e ações de alguns personagens da história, faça a correspondência adequadamente.
(1) Cordulina/ (2) Josias/ (3) Pedro/ (4) Paulo/ (5) Lourdinha/ (6) Alice/ (7) Dona Idalina/ (8) Major/ (9) Mariinha Garcia/ (10) Luis Bezerra/ (11) Doninha/ (12) Zefinha/ (13) Chiquinha Boa

(_____) Trabalhava na fazenda de Vicente. Na época da seca, achando que o governo do Ceará estava ajudando os pobres que migravam para a capital, deixou a zona rural.
(_____) Irmã mais velha de Vicente. Casou-se com Clóvis Garcia em Quixadá. No final, têm uma filha, símbolo da felicidade que as pessoas simples e descomplicadas conseguem conquistar.
(_____) É a esposa de Chico Bento. Personifica a mulher submissa, analfabeta, sofredora, com o destino atrelado ao destino do marido. É o exemplo da miséria como conseqüência da falta de instrução.
(_____) Filho de Chico Bento e Cordulina, tem cerca de dez anos de idade. Comeu mandioca crua e morreu envenenado na estrada.
(_____) Prima de Dona Inácia. Idalina é a mãe de Vicente, Paulo, Alice e Lourdinha. Vive com o marido, Major, na fazenda perto de Quixadá.
(_____) Filho de Chico Bento e Cordulina, é o mais velho, tem doze anos de idade. Desapareceu quando o grupo ia chegando a Acarape.
(_____) Irmão mais velho de Vicente, ele é o orgulho dos pais (pelo menos no início). Estudou, fez-se doutor (promotor) e casou-se na cidade com uma moça branca. Depois de casado, passou a dedicar o seu tempo à família, quase não se interessando mais pelos pais e pelos irmãos. Só então os pais deram valor a Vicente.
(_____) Compadre de Chico Bento e Cordulina. Trabalhara também nas Aroeiras sob o comando de Dona Maroca. Agora, é delegado em Acarape, povoado do interior do Ceará. Foi ele quem conseguiu passagens de trem para que a família do compadre chegasse a Fortaleza.
(_____) Irmã mais nova de Vicente. Mora na fazenda com os pais e os irmãos.
(_____) Esposa de Luís Bezerra, madrinha do Josias, o filho de Chico Bento que morreu envenenado na estrada.
(_____) Fazendeiro rico na região de Quixadá. Entrega a administração da fazenda ao filho Vicente. Orgulha-se de ter um filho doutor: o Paulo, promotor em uma cidade do interior do Ceará.
(_____) Moça bonita, de família rica, moradora de Quixadá. Com auxílio de Lourdinha e Alice, faz tudo para conquistar Vicente, mas as tentativas resultam inúteis.
(_____) Filha do vaqueiro Zé Bernardo. Conceição, acreditando numa conversa que tivera com Chiquinha Boa, acha que Vicente tem um caso com Zefinha