PADRE SEVERINO GUEDES - MEMÓRIAS DO TEMPO EM QUE ESTEVE A FRENTE DA PARÓQUIA JESUS, MARIA E JOSÉ
TEXTO ESCRITO POR OCASIÃO DOS SEUS 40 ANOS DE VIDA SACERDOTAL CELEBRADO NO DIA 20/03/2025
A princípio pensei em escrever um texto de cunho um tanto biográfico, pois estamos em festa, comemorando uma data significativa na vida de um grande servo de Deus. Confesso que minha veia de escritor me leva a transpor para o papel não datas, mas mesmo assim mencionarei, não nomes, mas mesmo assim mencionarei, sentimentos e altas doses de subjetividade, será com esses artifícios que homenagearei o Padre Severino Guedes, com quem tive o prazer de conviver durante longos 16 anos, com quem aprendi a dar os primeiros passos rumo ao fiel serviço junto a minha igreja.
Guardar momentos memoráveis em meu coração, é algo comum a minha humanidade. Lembro-me bem que o município de Guaiuba enfrentava uma certa turbulência, digamos assim, quanto a necessidade de um pastor para conduzir o rebanho de Cristo naquela pequena porção do Reino de Deus. Era comum os padres durarem pouco tempo em nossa paróquia e por diversas vezes a comunidade ficava desassistida espiritualmente. Na maioria das vezes a condução das atividades pastorais ficavam a cargo dos leigos que ali residiam, que com entusiasmo, sempre se uniam para fortalecer as raízes da fé em Cristo no meio do povo. Terezinha Assunção, Neguinha, Toto, Raimunda Paiva, Socorro Vieira, Seu Paulo Apolonio, Dona Expedita, Tezinha, Dona Nilsa, Fátima Ferreira, Dona Iolanda, Neide Lino, Sônia, Dona Margarida Tristão, Maria Maia, Dona Nenzinha, Fátima Frota, Ivoneide do Paulo Rossi, Dona Julia Pereira, dentre outros, mobilizavam a comunidade durante esses períodos atípicos – rezavam as novenas, zelavam a casa paroquial e as igrejas, organizavam os festejos em honra aos nossos padroeiros, celebravam a Palavra, dinamizavam os círculos bíblicos, catequizavam crianças, jovens e adultos.
E eis que no dia 09 de junho de 1985, Dom Aloisio Lonchaeider, arcebispo de Fortaleza na época, faz chegar ao nosso convívio o jovem padre Severino Guedes, natural de Pernambuco. De maneira simples é acolhido com alegria por toda a comunidade e no silencio do seu coração já vislumbrava o desafio que foi colocado sobre os seus ombros. Como os grandes líderes, a principio observa com atenção o seu campo de trabalho pastoral, para depois de algum tempo realizar grandes transformações na paróquia. A primeira preocupação foi o desejo de despertar naquele povo, sedento por um guia espiritual, o amor pela eucaristia. Uma de suas grandes iniciativas foi a de celebrar com jubilo o mês dedicado a Maria e dessa forma agregava todas as instituições da cidade nesse ato de fé – comerciantes, professores, diretores escolares, autoridades civis – e diariamente saiamos pelas ruas – eu ainda criança na companhia de minha tia Raimunda Paiva – a saudar com cânticos e orações nossa mãezinha do céu.
E as ações não pararam por aí, o zelo pela casa de Deus o consumia permanentemente, motivo pelo qual empreendeu diversas reformas e se pôs, com a ajuda da população, a construir templos religiosos nas comunidades onde o povo de Deus ainda se reuniam nos alpendres das casas para celebrar a Eucaristia. Não posso esquecer de mencionar a construção do Centro de Catequese e Pastorais Padre Severino Guedes – erguido com a supervisão do Padre Guedes e com o apoio de toda a comunidade – graças a diversas campanhas empreendidas. Toda a Sagrada Liturgia era celebrada com zelo. A semana santa e a tradicional caminhada penitencial – de Pacatuba a Guaiuba. A celebração de Pentencostes e de Corphus Cristhi. A coroação de Nossa Senhora. As festas do Santo Cruzeiro – que animava o mês de setembro. Os festejos em honra aos nossos padroeiros – Jesus, Maria e José. A comemoração do 1º de maio – dia do trabalho. E a celebração de tantos outros momentos festivos eram provas do dinamismo e envolvimento do Padre Guedes junto ao povo que tão bem conduzia espiritualmente.
Revivo com certa nostalgia as festas do Santo Cruzeiro. Quanta saudade daquela época. Aguardava ansioso quando, no dia 14 de setembro, antes da procissão solene do Cristo Crucificado, a radiadora do parque de diversões anunciava que o Padre Guedes autorizava todas as crianças a brincarem de graça em todos os brinquedos. Era uma euforia só por parte da meninada. A banda de música do corpo de bombeiros alegrava todo o novenário, tocando modinhas e canções que até hoje guardo na memória e que me tornaram um ser saudosista, um entusiasta pela cultura. As serestas reuniam as famílias na frente da casa paroquial e a atração da noite sempre era o Padre Guedes, que soltava sua voz entoando canções de todos os gêneros. Relembro todos esses acontecimentos para comprovar o quanto uma pessoa foi capaz de influenciar a formação de tantas crianças, jovens e adultos.
Agora nos encontramos em pleno domingo, dia dedicado ao Senhor. Cedo acordo para me aprontar. Não posso perder a Santa Missa das 8h da manhã – missa dedicada as crianças. Tudo preparado com zelo pelas catequistas e pela Tia Nilia que coordenava um grupo de crianças, do qual eu fazia parte, para dramatizar pequenas histórias que apresentavam a mensagem central do evangelho. O abraço da paz era a parte da missa mais aguardada. Todos corríamos para sermos saudados pelo Padre Guedes no altar e sempre recebíamos um puxão de orelha, ou um tapinha nas costas e saiamos dali irradiantes por termos sido acolhidos por nosso pastor. E a jiboia me falou que tá com fome, tá com fome, faz um ano que não come. E o trenzinho subiu a serra foi parar lá na estação eram canções do disco intitulado Terra do Contrário, do Padre Zezinho, que embalavam nossos domingos e nos animava indicando que a missa estava prestes a terminar.
Padre Guedes era temido pela população, pois sua forma de agir demonstrava o quanto tinha autoridade. Quantas brigas ele apartou na Praça do Santo Cruzeiro – quando via algum movimento estranho deixava o seu aconchego e resolvia o conflito utilizando-se de um cinto. Sempre teve prestigio junto as autoridades municipais e estaduais, o que dava a ele garantia de acolher e ajudar os mais necessitados, principalmente nos períodos em que grandes secas assolaram o nosso estado.
![]() |
ANTÔNIO CARLOS SALES PAIVA